quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Resenha: Sepultura "The Mediator Between Head and Hands Must Be The Heart" (2013)


“O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração.” Esta frase célebre marca o clímax de um dos maiores clássicos cinematográficos do começo do século XX. “Metrópolis” é um filme alemão, dirigido pelo cineasta austríaco Fritz Lang, baseado no livro de Thea von Harbou. Mesmo lançado em 1927 o roteiro da obra é tão realista que se tornou atemporal. A história se passa no ano de 2026, onde um empresário ditador vive com uma parcela da população em um local privilegiado. Enquanto os trabalhadores pobres moram no subterrâneo no meio da miséria e escravidão. Em síntese, a crítica de “Metrópolis” é de que os seres humanos acabaram perdendo os sentimentos e que vivem em um mundo alienado e controlado. Em 2008, 30 minutos originais e inéditos do longa foram encontrados e dois anos depois o filme foi relançado com o conteúdo acrescido. O guitarrista e líder da banda Sepultura Andreas Kisser assistiu a nova versão e isso o motivou como gancho inspirador para o álbum “The Mediator Between Head and Hands Must To Be The Heart” lançado em 25 de outubro de 2013. 

Em entrevista a revista Roadie Crew (edição #180 – Janeiro/2014), Andreas disse que o tema tem tudo a ver com o momento atual do mundo e especialmente do Brasil. Afirmou que as pessoas vivem robotizadas e doutrinadas a aceitarem tudo o que lhes é apresentado. Fala que as pessoas perderam o lado humano de questionar e argumentar e que isso tem uma forte ligação com as manifestações de junho de 2013, além do fato das pessoas apenas se comunicarem apenas através do celular e fora os perigos da lavagem cerebral dada pelo cristianismo. Kisser, porém, também criticou os próprios fãs de Metal ao dizer que a arte é livre e o nome longo do álbum já serve e mostra como as pessoas vivem robotizadas, pois incomodou alguns. 

Além de Andreas, a formação é completada por Derrick Green (vocal), Paulo Jr. (baixo) e do estreante Eloy Casagrande de apenas 22 anos (ex-Gloria). A produção é Ross Robinson. O mesmo que produziu o clássico “Roots” de 1996. “...Mediator...” segue o lado do Metal extremo (mais precisamente do Death) predominantemente, além é claro de Groove e Thrash Metal, mas com menor participação. Porém, este Thrash aparece em evidência na primeira faixa “Trauma of War”. Rápida, violenta e que já mostra as qualidades técnicas do novato e jovem baterista Eloy com belas “viradas’ ao final. Fala sobre os traumas que as imagens perturbadoras de uma guerra podem causar em alguém: “Children watch their mothers die. Raping a city in the name of freedom. Children growing their hate inside. A world they lost in the name of reason./ Crianças assistem suas mães morrerem. Estuprando a cidade em nome da liberdade. Crianças crescendo o seu ódio interior. Um mundo perdido em nome da razão.” 

O clima pesado continua na polêmica “The Vatican”. Uma crítica ao catolicismo e do falso Papa bonzinho. Um fantoche, na verdade, que faz parte de um sistema que quer que seus fieis continuem seguindo doutrinas como ovelhinhas. O mundo é pobre, mas o trono é de ouro.  As cruzadas, os casos de pedofilia acobertados e todo a podridão da Igreja Católica e citada neste Thrash/Death: “A bloody revolution in the name and love of Christ. Sadistic pedophile, abusers of lies and lust. The power of the church over men's intellect. A story of sacred swords, the darkest age of mankind./ Uma revolução sangrenta em nome e amor de Cristo. Pedófilo sádico, abusadores da mentira e da luxúria. O poder da igreja sobre o intelecto dos homens. Uma história de espadas sagradas, a era mais sombria da humanidade.” 

A velocidade dá espaço para a cadência em “Impending Doom”. Agora o alvo da crítica é a humanidade, pois esta está destruindo a natureza levando a todos para um futuro incerto: “Creating a wasteland, we sink slowly awaiting death. Born to suffer, live to kill, our motto of all mankind./ Criando uma terra devastada, nós afundamos lentamente aguardando a morte. Nascido para sofrer, viver para matar, o nosso lema de toda a humanidade.” A televisão (seja noticiário ou programa religioso) é criticada em “Manipulation of Tragedy”. Pesada indo mais para o lado do Death Metal, porém a inserção de atabaques dão o tradicional toque abrasileirado da banda: “Manipulated my God, the box. Worship, worship, bow down./ Manipularam meu Deus, a caixa. Veneração, veneração, curve-se.” 

A vingança e ira da mãe natureza sobre os humanos está em “Tsunami” que traz alguns elementos de Metal moderno: “Many run to look for shelter, and realize it can't exist. It has only one mission. To wipe all that's in the way./ Muitos correm em busca de abrigo e percebem que não existe. Há apenas uma missão. Limpar tudo o que está no caminho.” A alegria daqueles que vivem na ignorância e escuridão forjada pela religião está presente no Metal cheio de groove de “The Bliss of Ignorants”. O triângulo e as passagens acústicas no meio de todo peso evidenciam as origens da banda: “You didn't make us. In the end we'll save us. The bliss is gone, you awake to see./ Você não nos criou. No fim vamos nos salvar. A alegria se foi, você está acordado para ver.” 

Densa, sinistra e com um aura pesada. Esta é a depressiva “Grief”. Aqui o destaque é a interpretação de Derrick Green cheia de dor, transparecendo o sofrimento de alguém passando por um luto. Ela foi escrita em homenagem aos jovens que faleceram no incêndio da boate Kiss no Rio Grande do Sul no início de 2013. Em certos momentos, Green usa um vocal mais limpo com uma voz emocionada como se estivesse chorando: “Abandon by God. Warmth of death comforts my skin. Leave me with my grief./ Abandonado por Deus. O calor da morte conforta minha pele. Me deixe com meu luto.” A “bandeira do ateísmo” é erguida em “The Age of the Atheist”. Um Death/Thrash cheio de ceticismo contra as mentiras oriundas da fé e da distorção da realidade que esta traz: “Diversions are blocking our vision from the truth. The clear reality. Diversions turn our world to shit must stop. Deny. No gods, no leaders, no prophets telling my future. No heaven, no hell, not a messiah./ Distrações bloqueiam nossa visão da verdade. A limpa realidade. Distrações transformam nosso mundo em merda, isso deve parar. Negue. Sem deuses, sem líderes, sem profetas dizendo o meu futuro. Sem céu, sem inferno, nem um messias.” 

A obsessão em se ter isso ou aquilo também é um dos maus que afligem a sociedade. Está é o foco de “Obsessed”. Vale ressaltar a participação especial do baterista Dave Lombardo. A contribuição do ex-Slayer aconteceu por acaso. Lombardo estava passeando pela praia com a família (o álbum foi gravado em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos) e ligou para o produtor Ross Robinson. Robinson falou para ele passar no estúdio para uma jam com o Sepultura e aí... Sonoramente, a faixa é dark, meio tempo: “Want that, need that, I must have that. Hunger endless, restless spirit./ Quero isso, preciso disso, eu devo ter isso. Fome sem fim, espírito inquieto.” Ao fim uma surpresa. Encerra “Da Lama ao Caos”. Cover da banda pernambucana Chico Sciense e Nação Zumbi com Andreas Kisser cantando em português. Na entrevista a para a Roadie Crew (edição #180 – Janeiro/2014), Kisser afirmou que sempre teve vontade de lançar músicas cantadas em português, porém havia o empecilho da dificuldade de pronúncia por parte do americano Derrick Green. A última vez que isso ocorreu no Sepultura foi em 1993, ainda com Max Cavaleira, no álbum “Chaos A.D.” com “Polícia” do Titãs. O cover da banda de Andreas segue fiel a de Chico Sciense, porém, obviamente, com os adicionais elementos do Sepultura como o peso do Metal e os elementos brasileiros percussivos. A performance de Kisser nos vocais é boa e nada mais. A faixa tem 25 minutos ao total. No meio há um silêncio que é só interrompido ao final com um solo de bateria. 

Na versão para download via iTunes tem a música bônus “Stagnate State of Affairs” que começa sem chamar atenção, mas que possui uma belas passagens de Thrash Metal rápido e vigoroso. Já juntou na versão do single “The Age of the Atheist” veio outro cover: “Zumbie Ritual” do Death. A letra retrata um “ritual zumbi” cheio de escatologias: “Revengeful corpse out to kill. Smell the stench, your guts will spill. Vomit for a mind, maggots for a cock. With his axe the corpse will chop./ Cadáveres vingativos saem para matar. Sinta o mau cheiro, suas tripas derramarão. Vomito para um cérebro, larvas para um pênis. Com o seu machado, o cadáver fatiará.” A recepção do público e crítica não foi unanime, mas denota uma grande mudança. Com “Mediator...” e o antecessor “Kairos” a banda conseguiu conquistar respeito próprio diante da maioria dos fãs. A banda deixou de ser vista apenas na sombra da era dos irmãos Cavaleras. O público gostou da volta ao peso extremo tradicional do Death e do Thrash nos lançamentos recentes. Death Metal, aliás, é o que chama atenção e fazendo esta obra uma das mais pesadas da carreira do grupo. 

“The Mediator Between Head and Hands Must Be The Heart” é diversificado (cheio de mudanças de andamento, peso e velocidade, Metal e música brasileira...), denso e sinistro. Algumas faixas e passagens são sufocantes e até depressivas. Há uma aura de rancor, ódio e dor ao longo de toda o álbum sonoramente e liricamente com os ataques ao Cristianismo e sociedade em geral, além da tragédia da boate Kiss. De todo modo, os vocais gritados e nem um pouco melódicos de Derrick Green, assim como da própria sonoridade, além da incursão dos elementos brasileiros não me agradam. Porém é interessante notar que apesar de manter as características conhecidas da banda, o Sepultura conseguiu mostrar mais uma vez que é impossível saber exatamente o que eles vão trazer a cada lançamento. A única certeza é o peso. Em síntese, um álbum feito de caos e lama.


Faixas (clique e ouça):
5- Tsunami
7- Grief
12- Zumbie Ritual (bônus) 
                                                                       Opinião do autor:
Nota track by track.



Nota track by track.
Nota do álbum.
Banda: Sepultura
Ano: 2013
Álbum de estúdio nº 13
Gravadora: Nuclear Blast
Gênero: Death Metal
País: Brasil


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