sábado, 7 de fevereiro de 2015

Resenha: Iron Maiden "The Number Of The Beast" (1982)


Os primeiros contatos de Bruce Dickinson com o Iron Maiden aconteceram em 1980 quando excursionou ao lado da banda na turnê da compilação do álbum composto por músicas de várias grupos em “Metal For Muthas”. Ele, então novo vocalista do Samson, assistia as apresentações do Maiden em um canto e pensava consigo mesmo que o Iron era muito bom, porém o vocalista deles... Bem... Poderia ser melhor... Poderia ser o próprio Bruce no lugar. À época conhecido como “Bruce Bruce” Dickinson. Com o Samson gravou duas obras: “Head On” (1980) e “Shock Tactics” (1981). Mas mesmo contemporâneos a “Donzela de Ferro” já estava em um patamar superior não só de popularidade como de estrutura também. O líder do grupo, o baixista Steve Harris, ao perceber as qualidades técnicas de Dickinson, não teve dúvida de chama-lo para o posto (deixado por Paul Di’Anno). Afinal, este tinha um vocal operístico capaz de se sobrepor a qualquer instrumento. Conseguia ir do agudo ao grave com maestria, fora o carisma e a performance teatral e ao mesmo atlética nos palcos. Ou seja, era simplesmente perfeito para a nova fase que Harris queria começar para o crescimento da banda. Com a formação Adrian Smith (guitarra), Bruce Dickinson (vocal), Clive Burr (bateria), Dave Murray (guitarra) e Steve Harris (baixo) gravaram o terceiro álbum do Iron: “The Number Of The Beast”. 

Lançado em 22 de março de 1982 traz a maior polêmica da história, senão a única do Iron Maiden. Se o mundo do rock é conhecido pelos escândalos em diversos sentidos (sexo, drogas...) estes ingleses enfrentaram um problema puramente com uma questão artística mal compreendida. O título da obra mais precisamente. Muitos religiosos apontaram “O Número da Besta” (em tradução para o português) como fato para rotula-los como satanistas. A propaganda negativa, no entanto, foi extremamente útil para o Iron Maiden, porém. “Invaders” já começa mostrando a “nova sonoridade” da banda. Rápida, mas ao mesmo tempo melódica, simples em estrutura e guiada por um riff de guitarra. É uma faixa direta e que se assemelha, no entanto, com o som dos álbuns anteriores do Maiden (principalmente o refrão). Dickinson já mostra a força do próprio vocal operístico. A letra fala sobre uma invasão de vinkings a terra britânicas: “They're coming in for the kill, There's no turning back. Invaders......Fighting. Invaders......Marauding./   Eles estão vindo para a matança. Não existe como voltar. Invasores... lutando. Invasores... saqueando.” 

A seguinte “Children of the Damned” começa calma e melódica. A combinação baixo, violão, guitarra e leves batidas de bateria criam um clima de balada... Porém, o refrão é poderoso e Bruce mostra toda a técnica apurada, mas no meio da faixa ela muda o ritmo. Ganha peso e velocidade e culmina em um solo virtuoso de guitarra. A letra foi inspirada em dois filmes: “Village of the Damned” (1960) e “Children of the Damned” (1964): “Now it's burning his hands, he's turning to laugh, Smiles as the flames sear his flesh. Melting his face, screaming in pain. Peeling the skin from his eyes./ Agora que queima sua mão ele se vira para rir. Sorri enquanto a chama consome sua carne. Derretendo sua face que grita de dor. Arrancando a pele de seus olhos.” 

Já “The Prisoner” foi inspirada na série de televisão inglesa de mesmo nome e que foi transmitida entre 1967 e 1968.  Então Bruce Dickinson te pergunta... Você está se sentido sozinho e depressivo? Eu sei um lugar onde podemos ir... Para um puteiro! Em “22 Acacia Avenue” a saga da prostituta Charlotte é contada novamente (a “primeira parte” está na música “Charlotte The Harlot” no álbum “Iron Maiden” de 1980). Na letra, um mix de ousadia ao falar das estripulias capazes de serem feitas pela cafetina intercaladas com momentos de questionamento: “Abuse her misuse her she can take all that you've got. Caress her molest her she always does what you want… You're running away don't you know what you're doing. Can't you see it'll lead you to ruin./ Abuse dela, use-a, ela pode te dar tudo o que você quiser. Acaricie-a, moleste-a, ela sempre faz o que você quer... Você está fugindo, não percebe o que esta fazendo? Não consegue ver que isto levará você à ruína?” Música veloz, mas com “paradinhas” e um solo lento e atmosférico. 

Já a “faixa-título” foi uma inspiração do líder e baixista Harris após ter um pesadelo depois de ter assistido ao filme “Profecia 2” (1978). Além disso, houve a contribuição do conhecido poema britânico “Tam o’ Shanter” (1790) de Robert Burns. A introdução começa somente com a narração sombria e com eco do ator inglês Barry Clayton. Originalmente o posto deveria ser ocupado por Vincent Price, mas este não aceitou o convite. Price, aliás, meses depois seria o locutor na música “Thriller” do cantor Michael Jackson. Após o começo sinistro, no entanto, a música vai indo em um crescente de peso e euforia até terminar com um grito de Bruce Dickinson. A velocidade surge acompanhada de uma energia contagiante de Heavy Metal, sem contar o solo virtuoso. A letra retrata um indivíduo que presencia um ritual de magia negra, mas fica paralisado e sem poder interferir naquilo: “In the mist, dark figures move and twist. Was all this for real, or just some kind of hell. 666, the number of the beast. Hell and fire was spawned to be released./ Na névoa, formas escuras se moviam e se retorciam. Tudo isso era real, ou só algum tipo de inferno? Seis, seis, seis, o número da besta. Inferno e fogo nasceram para serem liberados.” 

A intro com bateria e guitarra já começa a criar o clima da curta, direta e empolgante faixa: “Run to the Hills”. Comparada a outras músicas do Iron, esta é até “simples”. O refrão espetacular e a técnica de baixo de Steve Harris, talvez, seja evidenciada aqui como nunca fora repetida na história da banda. O estilo “cavalgado” combina perfeitamente com o tema da faixa. A letra retrata a batalha pelo avanço territorial americano rumo ao oeste. Sendo esta descrita tanto pela visão dos indígenas: “White man came across the sea. He brought us pain and misery. He killed our tribes, he killed our creed. He took our game for his own need./ O homem branco veio pelo mar. Nos trouxe dor e miséria. Matou nossas tribos, matou nossas crenças. Levaram nossa caça para sua própria necessidade.” Quanto pela visão do homem branco: “Riding through dustclouds and barren wastes. Galloping hard on the plains. Chasing the redskins back to their holes. Fighting them at their own game. Murder for freedom, a stab in the back. Women and children and cowards attack./ Cavalgando por nuvens de poeira e desertos áridos. Galopando bravamente pelas planícies. Perseguindo os peles-vermelhas de volta em seus buracos. Combatendo-os em sua próprio jogo. Assassine pela liberdade, uma apunhalada nas costas. Mulheres, crianças e covardes atacam.” 

A bateria começa frenética em “Gangland”, mas existe algo de jazz ali. Não só nela como nos outros instrumentos. Este tempo atípico só é quebrado com a entrada dos vocais de Dickinson acompanhado da velocidade. Faixa mais reta e sem mudanças de andamento: “Once you were glad to be free for a while. The air tasted good and the world was your friend. Then came the day when the hard times began. Now you're alone but alive for how long?/ Uma vez você estava feliz por estar livre algum tempo. O ar cheirava bem e o mundo era seu amigo. Depois veio o dia em que os tempos ruins começaram. Agora você está só, mas vivo por quanto tempo?” 

A versão original em vinil de 1982 conta com apenas 8 músicas, mas a versão em CD lançada em 1995 foi incluída a faixa “Total Eclipse”. Ela tem um clima diferente. Tem alguns riffs Hard Rock, é mais calma e possui um clima atmosférico (o lado progressivo de Harris). A letra é sobre a vingança da natureza sobre a humanidade, após séculos de abusos cometidos: “Cold as steel the darkness waits it's hour will come. A cry of fear from our children worshipping the sun. Mother nature's black revenge on those who waste her life./ Fria como aço, a escuridão espera, sua hora vai chegar. Um grito de medo dos escolhidos que adoram o sol. A negra vingança da Mãe Natureza Direcionada para quem desperdiça a vida dela.” Encerra a obra... “Hallowed Be Thy Name”. De introdução lenta e dramática com ar de filme de terror narrada por Bruce Dickinson. Ela ganha peso, nesta longa e épica faixa. Riffs e melodias memoráveis que seguem de forma harmônica até o final veloz após o solo de guitarra virtuoso. Liricamente, retrata os últimos momentos de um condenado à morte: “When you know that your time is close at hand. Maybe then you'll begin to understand. Life down here is just a strange illusion./ Quando você souber que sua hora está chegando. Talvez então você comece a entender. Que a vida aqui embaixo é apenas uma estranha ilusão.” 

O álbum e a banda em si ganharam notoriedade com a campanha negativa propagada pelos religiosos ingleses que os acusavam de adoradores do diabo. Cada acredita ou não no que quiser, mas... Certos fatos ocorridos durante a gravação da obra, no mínimo, intrigam. Objetos que supostamente se mexiam, sons estranhos nas músicas, aparelhos quebrando-se mesmo em perfeito estado são alguns dos causos, mas nada que se compare com a história envolvendo o produtor Martin Birch. Em uma noite de gravação, Birth bateu o carro em outro que levava... 6 freiras! O lataria foi destruída. Quando a conta do concerto chegou com uma grande surpresa irônica e macabra... O trabalho custou 666 libras esterlinas! Para quebrar a sequência de problemas “diabólicos” Martin (católico) resolveu pagar uma libra a mais para fugir do “número da besta”. 

No entanto, depois de enfrentar problemas com o “senhor das trevas”, o Maiden encarou o “príncipe da trevas”. Durante a turnê  de divulgação de “The Number of The Beast” pelos Estados Unidos junto de Ozzy Osbourne (ex-vocalista do Black Sabbath e em início de “carreira solo”) ocorreu uma grande desavença entre as duas equipes de profissionais. De fato, o “Madman” nada fez... O problema era a empresária e esposa de Ozzy: Sharon Osbourne e o sogro dele: Don Arden (diretor da gravadora de Ozzy Osbourne). Pessoas de personalidade explosivas e que não gostaram de ver o cartaz de divulgação do show. Na imagem, Eddie, mascote do Maiden, aparecia segurando a cabeça de Osbourne. A brincadeira era uma alusão à recente polêmica envolvendo o ex-vocalista do Sabbath na qual este arrancara com os dentes a cabeça de um morcego em pleno palco durante uma apresentação. Arden pediu para que Rod Smallwood (empresário do Iron) retirasse os cartazes, mas Rod não concordou com a ideia. Resultado? A ira dos “Osbournes” e da polêmica envolvendo o álbum em si do Iron Maiden trouxe ainda mais destaque para a banda de Steve Harris. 

Eles conquistaram a América. O mascote da banda, aliás, deixou de ser apenas uma cabeça e virou um personagem completo e que circulava no palco durante os shows. “The Number...” foi muito bem nas paradas de sucesso de vários países. Na Estados Unidos atingiu a 33ª posição e vendeu mais de 1 milhão de cópias, na Nova Zelândia ficou em 18º, na Finlândia em 15º, na Noruega em 13º, no Canadá em 11º lugar e vendeu mais de 300 mil cópias, na Alemanha também ficou em 11º e 250 mil álbuns, na Suécia em 7º, na Holanda em 6º, na Áustria em 3º e mais de 25 mil cópias vendidas e no Reino Unido o topo e mais de 300 mil cópias. Na Suíça mais outras 25 mil. Para muitos fãs este álbum é o melhor do Iron. Segundo o site Music Radar em parceria com a conceituada revista Metal Hammer decidiram via consulta particular que “The Number...” é o 2º melhor álbum do estilo de todos os tempos (ficou atrás apenas de “Master of Puppets” do Metallica). De fato, “The Number Of The Beast” se tornou um álbum histórico. A exposição que o Iron Maiden recebeu por causa desta obra fez com que várias qualidades apresentadas se tornassem referência. As melodias, harmonias, riffs, linhas de baixo, refrãos, o desempenho individuai de cada integrante, as ricas letras e afins viraram exemplos a serem seguidos. 



Faixas (clique e ouça):
9- Hallowed Be Thy Name


                                                                             Opinião do autor:
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Banda: Iron Maiden
Ano: 1982
Álbum de estúdio nº 3
Gravadora: EMI
Gênero: Heavy Metal
País: Reino Unido


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