quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Resenha: Judas Priest "Redeemer Of Souls" (2014)


Um integrante para um banda pode ser tão importante para ela que a saída deste pode colocar o futuro do grupo em risco. Foi o caso dos britânicos do Judas Priest. Em dezembro de 2010, foi anunciado que o Judas faria uma turnê de despedida dos palcos chamada “Epitaph Tour”. Meses depois (em abril de 2011), porém, era anunciada a saída do guitarrista K.K. Downing. Sem nenhum grande motivo, no entanto. K.K. ao lado do baixista Ian Hill formaram o Priest em 1969, além de ser um dos principais compositores. Se para os fãs a notícia já era ruim ao verem o fim da banda ela só piorou com a aposentadoria de Downing. O substituto escolhido foi o também inglês Richie Faulkner. Antes da entrada de Faulkner, o vocalista Rob Halford em entrevista a revista Roadie Crew (edição #188 – setembro de 2014) disse que todos os integrantes pensaram que realmente aquele seria o capítulo final do Judas. Mas... O “jovem” Richie Faulkner com 31 anos na época (metade da idade dos companheiros de banda) trouxe frescor e uma nova energia. 

A empolgação foi tamanha que depois de um ano incessante de turnê com datas em vários países (incluindo o Brasil com São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília) e continentes entre junho de 2011 e maio de 2012 resolveram gravar um novo álbum de estúdio. Além de Hill, Halford e Faulkner com Glenn Tipton (guitarra) e Scott Traves (bateria) lançaram em 8 de julho (nos Estados Unidos) “Reedemer Of Souls”. Décimo sétimo trabalho de inéditas e o primeiro em 6 anos desde “Nostradamus” em 2008. Os shows revisitando músicas de toda a carreira fez com que quisessem gravar novos sons. Só que desta vez, afirmaram que queria uma produção mais “ao vivo” comparado aos antecessores. Por isso, após ouvirem “13” (2013) do Black Sabbath decidiram chamar o engenheiro de som Mike Exeter para ser o responsável em deixar a sonoridade “na cara”. 

Dragonaut” começa com trovões e um riff bem Hard Rock, mas ao melhor estilo Heavy Metal do Priest. E segue nessa mistura de Hard n’ Heavy de levada rápida em uma letra mitológica sobre um dragão: “Fire in the sky. Paralysed with fear. You know you're gonna die. Dragonaut is near./ Fogo no céu. Paralisado de medo. Você sabe que você vai morrer. Dragonaut se aproxima.” Já a seguinte é faixa-título “Redeemer of Souls” e que se assemelha ao Heavy tradicional apresentado em músicas como em “Hell Patrol” (“Painkiller” de 1990). A melodia das guitarras e dos vocais de Rob criam uma faixa memorável. A intro em crescente (“fade in”) em “Halls of Valhalla“ guiada pelas guitarras já chamam atenção e geram expectativa. Porém, Rob Halford utiliza de forma desnecessária os vocais agudos. O problema é que o alcance vocal de Rob devido à idade (63 anos) impede que ele tenha um bom desempenho nesta técnica especificamente. Em compensação, o ritmo, melodia e o refrão pra cantar junto nos shows são muito bons. Os toques de peso ao final lembram a fase (1996 a 2003) do Judas com o vocalista americano Tim “Ripper” Owens nos vocais. A letra é sobre a conhecida mitologia viking sobre Valhalla. Em síntese, este local é um salão pertencente ao deus Odin em Asgard para onde são levados parte dos espíritos dos mortos em batalha: “Valhalla, you are calling. Valhalla, you are calling me home. Valhalla, new day dawning. Valhalla, this is where I belong, I belong./ Valhalla, você está chamando. Valhalla, você está me chamando para casa. Valhalla, novo dia amanhecendo. Valhalla, é aqui que eu pertenço, eu pertenço.” 

A velocidade sai e dá espaço para o som mais cadenciado de “Sword of Damocles”. Mais uma faixa com um refrão bem destacado. Há uma passagem semiacústica na qual Halford canta sussurrando os versos para o clima ser quebrado em seguida pelo peso dos bumbos de bateria. Rob novamente tenta usar os vocais e o resultado, às vezes, soa, infelizmente, cômico. A parte lírica é a respeito da anedota a respeito da insegurança. Sentimento este que também é sentido por qualquer um... Até mesmo pelos mais poderosos. A linha tênue entre a glória e o fracasso sob fio na navalha: “Stand tall rise up stay strong fighting your enemies. Truth will find its reward. If you live and die by the sword./ Aguente firme até ficar forte, lute contra os seus inimigos. E a verdade encontrará sua recompensa. Se você viver e morrer pela espada.” 

Já “March of the Damned” é mais simples e é guiada por um belo riff. Que, aliás, acompanhado do peso e melodia forma certo swing memorável que tem certos toques de Hard Rock. O refrão é seguindo por mais um grande riff grudento. “Down in Flames” começa belos acordes em crescente. As guitarras gêmeas já envolvem o ouvinte apesar da estrutura dos riffs simples: “Going down in flames. Going down in a blaze of glory. Leaving my mark on the world when I've gone. Spreading the word by the deeds that I've done./ Descendo em chamas. Descendo em uma chama de glória. Deixando minha marca no mundo quando eu fui. Espalhar a palavra pelas obras que eu fiz.” A seguinte, “Hell & Back” começa com Halford cantando de forma calma… Sussurrando. Parece balada, mas não é. O som ganha peso e cadência, além de um riff e uma levada mais Rock n’ Roll. A letra é sobre a superação através dos momentos difíceis: “We've been through it all. We've been through hell and back. Taking it up higher when you're under attack./ Nós já passamos por tudo isso. Nós já passamos pelo inferno e voltamos. Torne-se maior quando você está sob ataque.” 

Novamente começa com um riff “na cara” "Cold blooded". A faixa é densa, melódica, mas acessível. O refrão, porém faz um contraponto é mais agitado e pesado. O sangue frio tratado aqui é um sentido depressivo. Aparentemente a personagem da história ficou apática para com o mundo, após o trauma de uma separação ou rejeição: “You took my life and all I live for. I'm left for dead. Cold blooded and in hell. There is no way. I have no voice. I have no say. I have no choice. I feel no pain or sympathy. It's just cold blood. That runs through me./ Você levou a minha vida e tudo que eu vivo. Estou deixado para morrer. Sangue frio e no inferno. Não há nenhuma maneira. Eu não tenho voz. Eu não tenho palavras. Eu não tenho escolha. Eu não sinto dor ou simpatia. É apenas sangue frio. Isso corre através de mim.” Mesmo sendo o Manowar reconhecida como a banda que mais nomeia os títulos das próprias músicas como o nome “Metal alguma coisa”, o Judas Priest também várias vezes homenageia o próprio estilo. “Metalizer” é rápida, riffs cortantes e até há alguns agudos de Rob. 

Por outro lado, “Crossfire” tem um ar meio “Sabático”. Novamente, infelizmente, o vocalista usa bastante os vocais altos e agudos... O resultado fica, no mínimo, estranho. O começo sinistro (segue desta maneira) de “Secrets of the Dead” tem “algo” do álbum “Painkiller”. Cadenciada e pesada, além de um toque de Oriente Médio em estrutura... Não em sonoridade, vale salientar. Talvez por falar das areias do deserto. “Battle Cry” começa com as guitarras com acordes em crescente para em seguida ser substituída pela velocidade. Ela exemplifica o som do álbum. É rápida, simples, com peso, mas melódica e com Halford evidenciando o desgaste da idade. A última faixa da versão simples traz no título algo que os fãs de Judas Priest não gostariam de ler... “Beginning of the End” é uma balada lenta, melancólica e dramática. A letra em tom de despedida fala do momento da “partida para o outro lado” depois de tanta agonia, mas que deixa os rastros dos atos para a toda a eternidade seja em objetos ou no coração das pessoas que nos conheceram: “I'm never gone. I'll always be within your heart. Waiting's the worst part. Now the voices are calling me. Soothing me and erasing the pain and the fear./ Eu nunca fui embora. Eu estarei sempre dentro do seu coração. Esperar é a pior parte. Agora que as vozes estão me chamando. Me acalmando e apagando a dor e o medo.” 

A versão deluxe trás 5 bônus. A primeira é a Hard Rock (ela traz isso no riff, no clima e no refrão) “Snakebite”. O começo lento de “Tears of Blood” pode até enganar. O riff inicialmente tranquilo e em crescente é substituído por uma versão do mesmo só que mais rápido. O refrão, no entanto, é calmo. O som continua na linha Heavy Metal tradicional. Já “Creatures” abre, de novo, com um riff isolado palhetado. Rob canta em tom mais baixo e isso dá um tom mais pesado a faixa. O refrão é bem destacado. O jeito despojado das estrofes e do riff dão um ar Hard Rock a “Bring It On”. Porém, a faixa que mais chama atenção é a última de todas... A bela balada “Never Forget”. Simples e tão clara. A sonoridade é semi-acústica, mas traz alguns elementos épicos para deixa-la ainda mais grandiosa. A melodia de fácil assimilação chega a ser romântica e carinhosa como um abraço. E é isto que o Judas Priest quer. Agradecer os fãs pela lealdade nestes mais de 40 anos de carreira. Quando a banda começou em 1969, os (conterrâneos) Beatles ainda estavam na ativa! Estes veteranos do couro, aço e Metal fazem uma homenagem ao melhor estilo Manowar (no bom sentido). A letra singela e sentimental, mas que ao mesmo tempo quer dizer muito e como dito antes... Um abraço:  “As we relive the best times of our lives. You were there for us and stood right by our sides. Yes we know that all good things come to an end. This is just farewell and not goodbye my friends. And we thank you for it all. We will never forget./ À medida revivemos os ápices de nossas vidas. Vocês estavam lá por nós e ficaram bem ao nosso lado. Sim, sabemos que todas as coisas boas chegam ao fim. Este é apenas adeus e não um até breve meus amigos. E obrigado por tudo. Nunca esqueceremos.” 

Ao redor do mundo, o álbum chegou a 32ª colocação na Irlanda; em 31º na Austrália e na Nova Zelândia; 29º na Itália; 26º na Holanda; 25º na Bélgica; 22º na França; 13º na Hungria; 12º Escócia em si e no Reino Unido; 9º na Dinamarca; 8º na Polônia; 6º na Áustria, na Suíça e nos Estados Unidos; 5º no Canadá e na Suécia; 3º na Alemanha e na Noruega; além de 1º na Finlândia. A opinião dos críticos e dos fãs ficou dividida. Alguns apontaram que o álbum não acrescenta nada de novo à discografia, pois possui vários elementos apresentados na própria carreira do grupo nas últimas 4 décadas. Outros afirmam que é o melhor desde “Painkiller” ou que é, pelo menos, a continuação de “Angel Of Retribution” (2005). De fato, os dois lados estão certos. “Redeemer of Souls mostra diversas características que formaram a história destes ingleses. Não há nenhuma novidade e nem necessitava ter, afinal não precisavam provar nada a ninguém. É uma obra homogênea, cheia de qualidades e que qualquer fã da banda ou de Heavy Metal em si precisa admitir. “Redeemer...” não é só mais um álbum. É um presente aos fãs e uma celebração. Poderiam já ter se aposentado e terem feito companhia a K.K.? Sim. Mas não fizeram isso, felizmente. Ao invés de serem criticados por continuarem deveriam ser elogiados e aplaudidos, já que, provavelmente, da próxima vez as cortinas se fecharem não haverá um bis. Obrigado, Judas Priest... Nós nunca esqueceremos!


Faixas (clique e ouça):
10- Crossfire
14- Snakebite (Bônus)          
15- Tears of Blood (Bônus)  
16- Creatures (Bônus)  
17- Bring It On (Bônus)  
18- Never Forget (Bônus)  



                                                                             Opinião do autor:
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Nota do álbum.
Banda: Judas Priest
Ano: 2014
Álbum de estúdio nº 17
Gravadora: Epic, Columbia
Gênero: Heavy Metal
País: Reino Unido


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