sábado, 14 de março de 2015

Resenha: Metallica "Kill 'Em All" (1983)























Em 1983, depois de superarem vários problemas incluindo a troca de integrantes (de forma bastante conturbada) a banda americana Metallica já tinha conquistado algo importantíssimo: fãs. Com apenas 2 anos de existência o nome do grupo já estava na boca dos jovens metaleiros da costa Oeste a Leste dos Estados Unidos. Tudo graças à troca de fitas, ao boca a boca do público e ao esforço de tocarem ao vivo a maior quantidade de vezes possíveis e em todos os lugares. Cliff Burton (baixo), James Hetfield (vocal e guitarra base), Kirk Hammett (guitarra solo) e Lars Ulrich (bacteria) viram que era a hora de dar o próximo passo na carreira depois de produzirem vários demos. O sonho do primeiro álbum inteiro precisava ser concretizado. Porém, existia um problema... 

O empresário, Jon Zazula, bem que tentou apresentar a sonoridade do quarteto para várias gravadoras, mas sempre obteve um grande não na cara. Como nenhuma porta queria se abrir, eles decidiram montar o próprio selo independente para gravar o álbum de estreia. Nascia a Megaforce Record. Quem surge para apontar o rumo do Metallica é o “guerreiro do Metal” Joey DeMaio, baixista da banda de Heavy Metal (épico) Manowar. DeMaio indicou o mesmo estúdio onde a banda dele havia gravado recentemente. Solucionado isso, surge um novo empecilho: o valor da gravação. O trabalho todo custaria 15 mil dólares! Zazula conseguiu pagar a quantia, mas quase foi a falência. Uma vez em estúdio, Jon mostrou uma outra faceta. Ele era controlador e não permitia que o próprio Metallica tivesse acesso ao material registrado ou que palpitasse a respeito da produção. O produtor foi Paul Curcio. Um sujeito que, segundo James, estava mais preocupado em saber se o café estava pronto e o que fariam depois de acabarem as seções daquele dia. Apesar da falta de apoio neste momento importante e mesmo com a sonoridade fraca criaram um álbum impetuoso e arrogante. Algo que condizia com a jovialidade dos integrantes. Era um louvor a si mesmos e ao Metal. Sendo assim, era lançado em 25 de julho de 1983 “Kill ‘Em All”. 

Porém este não era o título original da obra. A primeira versão se chamava “Metal Up Your Ass” (“Metal Dentro da Sua Bunda”) e a capa trazia um vaso sanitário com um braço emergindo segurando uma vaca. A distribuidora do material “surpreendentemente” achou o nome “um pouco pesado”, por isso pediu para que mudassem. Os integrantes não gostaram nenhum pouco da ideia. Principalmente, Cliff Burton. Ao saber da notícia disse em resposta: “Kill ‘Em All” (matem todos eles) referindo-se aos produtores. Lars gostou da brincadeira e assim nasci o nome definitivo. Álbum constituído basicamente pelas mesmas músicas apresentadas na demo “No Life 'til Leather” ainda em 1982. 

A abertura em ‘crescendo’ de “Hit the Lights” já gera expectativa e empolgação no ouvinte. A bateria já chama atenção. A qualidade de gravação superior ajuda, mas Hetfield já mostrava uma ligeira melhora na performance vocal em comparação a demo independentemente. O refrão falado e os riffs podem agradar. O fato é que aquela velocidade e raiva da faixa transbordava energia adolescente. A letra a devoção ao Metal pela banda e as pretensões dos mesmos: “No life till leather. We are gonna kick some ass tonight. We got the metal madness. When our fans start screaming. It's right well alright. When we start to rock. We never want to stop again./ Não há vida antes do couro. Vamos chutar alguns traseiros esta noite. Ficamos com a loucura do metal. Quando nossos fãs começam a gritar. Esta certo, bem certo. Quando começamos a agitar. Nunca queremos parar novamente.” 

Criada por Dave Mustaine (e lançada ainda com ele na demo citada acima) “The Mechanix” falada sobre “carros” (na verdade, ela era composta por várias frases de duplo sentido com conotação sexual): “You say you want your order filled. Made me shiver when I put it in. Pumping just won't do, you know, lucky for you./ Você diz que quer a sua encomenda cheia. Me fez tremer quando eu colocá-lo em. Bombeamento só não vai fazer, você sabe, sorte para você.” Para não ficarem com algo que remetesse ao ex-guitarrista, o Metallica resolveu manter a música só que uma letra diferente. Rebatizada de “The Four Horsemen” falava sobre a força dos quatro cavaleiros do apocalipse. Uma óbvia alusão aos próprios integrantes da banda: “The Horsemen are drawing nearer. On the leather steeds they ride. They have come to take your life./ Os cavaleiros estão aproximando-se. Nas selas de seus cavalos eles vagueiam. Eles vieram para tomar a sua vida.” 

Mustaine, no entanto, depois do lançamento e por muitos anos criticou os ex-companheiros de grupo por “roubarem” a ideia dele. Sendo assim, a versão original de “The Mechanix” foi lançada no álbum de estreia do Megadeth de Dave em “Killing is My Business... And Business is Good!” (1985). “The Four...” é rápida, mas não possui a mesma velocidade da versão demo ou a de “Killing...”. Esta é mais melodiosa e possui até um trecho atmosférico no meio. Kirk se destaca com o solo e o próprio riff da faixa que, aliás, lembra um pouco o de “Detroit Rock City” do Kiss. Motorbreath” abre com a bateria de Lars e um riff contagiante de guitarra. O lado punk fica evidente aqui, pois a música simples, pesada e direta. Sem rodeios. Destaque para o refrão marcante e para o bom trabalho de guitarras. Esta sim falando sobre o prazer proporcionado pela velocidade de uma corrida de automóveis: “Motorbreath. It's how I live my life. I can't take it any other way. Motorbreath. The sign of living fast. It is going to take. Your breath away./ Gás de escapamento. É como eu vivo a minha vida. Não consigo ser de outro modo. Gás de escapamento. Uma marca de viver rápido. Isto vai tirar o. Teu fôlego.” 

Já a seguinte, “Jump in the Fire” tem uma sonoridade simples com um híbrido de Heavy Metal inglês da época (a tal influência da Nova Era do Heavy Metal Britânico) com um pouco do estilo de fácil assimilação e de “agressividade limitada”. O refrão é bem adolescente. No futuro, Lars confessou que a ideia com esta era fazer algo como o Iron Maiden fez com “Run To The Hills”, ou seja, algo acessível e direto. A parte lírica é um convite do diabo: “With hell in my eyes and with death in my veins. The end is closing in. Feeding on the minds of man. And from their souls within. My disciples all shout to search out. And they always shall obey. Follow me now my child not the meek or the mild. But do just as I say. So come on. Jump in the Fire./ Com o inferno em meus olhos com morte em minhas veias. O fim está chegando. Alimentando as mentes dos homens. E as suas almas. Meus discípulos todos ordenados a encontrar. E eles devem sempre obedecer. Sigam-me agora minhas crianças não os mansos e meigos. Mas façam apenas o que eu disser. Então venha. Pule no fogo”. 

O baixista Cliff Burton tem o próprio momento de brilho na instrumental “(Anesthesia) Pulling Teeth” super distorcida e com pedal wah-wah. Após, vem uma das músicas que mais chamaram atenção no cenário Metal da época para o Metallica. Em “Whiplash” a velocidade é o destaque. Naquela época (e por mais uns poucos anos) existia uma competição simbólica entre todas as bandas para saber qual era a que conseguia tocar mais rápido. A banda de Lars e companhia era uma das grandes candidatas ao posto em 1983, mas concorria diretamente com os compatriotas e irmãos de Thrash Metal do Slayer que lançou no mesmo “Show No Mercy”. Também trabalho de estreia. Vários grupos se inspiraram nessa técnica frenética. Esta faixa é mais clara influência de Punk e Motörhead que poderiam apresentar. Cru, direto, riff de “cerrote” e sem espaço para melodias. A letra “infantil” inocente mostra a banda ainda no início com a mente cheia de sonhos, mas com muita energia para “destruir tudo”: “Bang your head against the stage. Like you never did before. Make it ring Make it bleed. Make it really sore. In a frenzied madness. With your leather and your spikes. Heads are bobbing all around. It is hot as hell tonight./ Bata sua cabeça no palco. Como nunca fez antes. Faça ela latejar, faça sangrar Faça ferir de verdade. Em uma loucura frenética. Com suas roupas de couro e espinhos. Cabeças balançam a sua volta. Está quente como o inferno hoje.” 

Riff, riff, riff... O começo de “Phantom Lord” é bem veloz e Thrash, porém no meio há espaço para algo mais lento e atmosférico. Simples, intercala o riff entre as estrofes. Vale lembrar que “Phantom Lord” é o mesmo nome de uma das várias bandas criadas por James Hetfield.  Uma música em honra ao “Lorde Fantasma” e o exército de metaleiros cheios de couro com o seguiam: “Hear the cry of War. Louder than before. With his sword in hand. To control the land. Crushing metal strikes. On this frightening night. Fall onto your knees. For the Phantom Lord./ Ouça o grito de guerra. Mais alto que nunca. Com sua espada nas mãos. Para controlar a terra. Batidas massacrantes de metal. Na noite aterrorizante. Caia de joelhos. Frente ao Lorde fantasma.” 

Apesar de iniciar com um belo e longo solo virtuoso “No Remorse” se caracteriza por um simples guiado por um riff repetitivo. A letra fala dos horrores da guerra: “Attack. Bullets are flying. People are dying. With madness surrounding all hell's breaking loose…/ Ataque. Balas estão voando. Pessoas estão morrendo loucamente. Cercando a todos, o inferno está se libertando.” Já a seguinte começa com um riff memorável na introdução em “Seek & Destroy”. Faixa mais lenta com apenas uma variação de tempo no meio. O refrão feito para ser cantando em coro ao vivo. Fala sobre o espírito caçados e destruidor... “Our brains are on fire with the feeling to kill. And it will not go away until our dreams are fulfilled. There is only one thing on our minds. Don't try running away, 'cause you're the one we will find. Ler a parte da biografia da banda e que fala de cada faixa./ Nossos cérebros estão queimando com a vontade de matar. E ela não irá embora até que nossos sonhos estejam completos. Só há uma coisa em nossas mentes. Não tente fugir, pois você é aquele que encontraremos.” A última música, no entanto, traz novamente a velocidade com aquele certo DNA Hardcore Punk... E com muita energia e louvando o próprio Metal! “We are as one as we all are the same. Fighting for one cause. Leather and metal are our uniforms. Protecting what we are. Joining together to take on the world. With our heavy metal. Spreading the message to everyone here. Come let yourself go. On through the mist and the madness. We are trying to get the message to you. Metal Militia./ Nós somos como um só como se fôssemos o mesmo. Lutando por uma causa. Couro e metal são nossos uniformes. Protegendo o que somos. Juntando-se para conquistar o mundo. Com o nosso heavy metal. Espalhando a mensagem para todos aqui. Venha, deixe-se ir. Dentro da névoa e loucura. Tentamos levar a mensagem a você. Milícia do metal.” Em 1983, o Metal começava a receber mais atenção nos Estados Unidos. O estilo estava crescendo, porém o segmento era outro... Era o Glam das bandas principalmente de Los Angeles com o visual andrógeno misturado ao couro preto tradicional britânico em uma sonoridade mais acessível. Este foi um dos motivos da banda ter se mudado de LA para San Francisco capital da Califórnia. O Metallica estava longe de fazer algo parecido com isso. O som destes era uma mistura dos riffs do Metal inglês com a atitude crua e direta Punk com algo novo e agressivo. De fato, um som que não agradaria as massas. Nascia o Thrash Metal! Na época, os críticos não prestaram atenção no lançamento... Mas o público metaleiro sim! Eles sabiam que aquilo era diferente e que tudo o que viria depois também seria. Na questão de números, a massa só “descobriu” “Kill ‘Em All” três anos depois quando foi lançado o clássico terceiro álbum do Metallica “Master of Puppets”, mas aí é outra história... Em 1986, alcançou a posição 155 no ranking Billboard americana. Em 1988, o álbum voltou a aparecer no Top americano graças ao quarto trabalho do grupo “...And Justice For All” e chegou à melhor colocação até hoje: 120. Ao todo foram 3 milhões de cópias vendidas só na Terra do Tio Sam até 1999. No Canadá e Reino Unido foram outras 100 mil cópias em cada país. As resenhas foram super positivas. A revista estadunidense Rolling Stone classificou-o na 35ª posição entre os 100 melhores álbuns da década 80. A mesma publicação também afirmou que este foi a 55ª melhor estreia de um artista. A revista inglesa de Metal “Kerrang!” deram a eles a posição 29 dentre os 100 melhores álbuns de Heavy Metal de todos os tempos. No Brasil “Whiplash” foi trilha da abertura do programa “Fúria Metal” da emissora MTV nos anos 90. Já “Motorbreath” foi o do programa de web-rádio “Heavy Nation” do UOL. De fato, “Kill ‘Em All” refleta a mentalidade, qualidades e imitações do Metallica na época ainda tão jovens e espinhentos. A questão é que sentimento e orgulho de ser “pequeno” nunca fez parte dos integrantes. Diferentemente de outros grupos que copiaram o modelo deste trabalho. Lars Ulrich, principalmente, pensava grande... Muito grande... Ele não queria ser mais um... E sim ser líder da maior banda de Metal da Terra! “The show is through the metal is gone. It is time to hit the road. Another town Another gig. Again we will explode. Hotel rooms and motorways. Life out here is raw. But we will never stop. We will never quit. Cause we are METALLICA./ O show acabou, o metal já foi. É hora de pegar a estrada. Outra cidade, outro espetáculo. Novamente iremos explodir. Quartos de hotel e estradas. A vida fora disso é triste. Mas nós nunca iremos parar. Nós nunca terminaremos. Pois somos o Metallica.” (trecho da letra de “Whiplash”). 




Faixas (clique e ouça):
1- Hit the Lights
2- The Four Horsemen
3- Motorbreath
4- Jump in the Fire
5- (Anesthesia) Pulling Teeth
6- Whiplash
7- Phantom Lord
8- No Remorse
9- Seek & Destroy
10- Metal Militia


                                                                             Opinião do autor:
Nota track by track.

Nota track by track.

Nota do álbum.

Banda: Metallica
Ano: 1983
Álbum de estúdio nº 1
Gravadora: Megaforce Records
Gênero: Thrash Metal
País: Estados Unidos






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