quarta-feira, 11 de março de 2015

Resenha: Within Temptation "Hydra" (2014)






















Em 2011, o Within Temptation lançou “The Unforgiving” (“O Inesquecível” em português). Uma homenagem às bandas dos anos 80 ao incorporar à sonoridade do grupo os elementos do Metal daquela época. Algo diferente do tradicional Symphonic Metal praticado por eles. No entanto, nada se compara ao que fizeram em “Hydra” sexto trabalho destes holandeses lançado em 31 de janeiro de 2014. Em entrevista a revista Roadie Crew (edição 181 – fevereiro de 2014) a banda afirmou que inicialmente tinham em mente manter a mesma linha do antecessor, porém a primeira faixa composta (“Let Us Burn”) já denotava um novo e natural direcionamento. A nova fase e proposta ficam evidentes na (belíssima) arte da capa com uma hidra. Ser da mitologia grega composto de corpo de dragão e sete cabeças de serpente. Diz a lenda que quando uma destas era decepada uma nova surgia no lugar. Talvez, a metáfora utilizada se refira ao fato que as dificuldades de se manter uma banda foram superadas com o tempo e o Within Temptation manteve-se firme. E também pode ser visto como um sinal que evidencia as diversas mentes independentes que formam o mesmo grupo. De fato, cada integrante possui os próprios gostos musicais. E isso nunca ficou tão claro. A vocalista Sharon den Adel já afirmou categoricamente (e causando polêmica) de que não são o AC/DC para gravarem “o mesmo álbum” sempre. Referindo-se ao fato de que os australianos mantêm o mesmo estilo de tocar desde os anos 70 sem mudar em praticamente nada de obra para obra. É possível encontrar elementos de pop e até rap neste lançamento aqui. Ao lado se Sharon, Jeroen van Veen (baixo), Martijn Spierenburg (teclado), Mike Coolen (bateria), Robert Westerholt (guitarra e vocais guturais nas faixas 6 e 9), Ruud Jolie (guitarra) e Stefan Helleblad (guitarra). Vele salientar, no entanto, que Robert (também marido de Sharon) trabalhou em estúdio com a banda na gravação de “Hydra”, mas na turnê é substituído por Stefan. 

O álbum começa com “Let Us Burn”. O som tem o toque tradicional melancólico da banda, porém é acessível devido às guitarras e a harmonia. Combinado aos elementos modernos a deixa ainda mais radiofônica e “americanizada”. Evidenciando o novo direcionamento do Within Temptation. A letra fala de libertação e de iniciativa contra os empecilhos que podem atrapalhar qualquer um em busca dos próprios sonhos: “I'm not fighting myself, will not follow. 'Cause my choices are mine, it's my fate. And I'll never bow down from the sorrow. I'll face all that is coming my way./ Eu não estou contra eu mesma, não vou seguir. Porque as minhas escolhas são minhas, é o meu destino. E eu nunca vou me curvar à tristeza. Vou enfrentar tudo o que está vindo em minha direção.” 

Já “Dangerous” começa com peso e velocidade, mas também mostra a superprodução envolvida. A primeira participação especial surge com o americano Hawald Jones (Devil You Know e ex-Killswitch Engage). Haward utilizando vocais limpos intercala passagens com den Adel. Fala sobre a liberdade a adrenalina que se tem quando se faz algo perigoso: “It's dangerous to sacrifice. It makes your blood run to throw the dice. It's dangerous, it's what you like. It's what you'll die for to live this life. We're going on, no we'll never stop. We're going on 'till our worlds collide. It's dangerous. So dangerous. Dangerous./ É perigoso sacrificar. Faz seu sangue correr para lançar os dados. É perigoso, é o que você gosta É o que você vai morrer para viver esta vida. Estamos indo, e nós nunca vamos parar. Estamos indo até os nossos mundos colidirem. É perigoso. Tão perigoso. Perigoso.” 

As primeiras notas de "And We Run" aliadas à entrada dos vocais de Sharon junto da guitarra já fazem a melodia de fácil assimilação em crescente grudar na mente. Aqui há a participação mais inesperada. O rapper/ator americano Xzibit traz o estilo falado de cantar aliado os vocais doces de del Adel e lembra algo como Nu Metal ou Eurodance. A letra é positiva. Trabalha com autoestima e tenta dissipar o medo no ouvinte de temer em arriscar: “I'm a break these chains, ran thru the rain. Never look back, never quit, work thru the pain. This blood in my veins runs cold. When I think I'll never be the same, but I never lose hope. This is my time now, no time for tears. Celebrate, put it in the air right now. Never back down./ Eu quebrei essas correntes, corri pela chuva. Nunca olhei para trás, nunca desisti, superei a dor. Este sangue nas minhas veias corre frio. Quando eu penso que nunca mais será a mesma coisa, mas eu nunca perco a esperança. É a minha hora agora, não há tempo para lágrimas. Celebre, lance-o no ar agora. Nunca desista.” 

Depois do “susto” para os tradicionalistas com o convidado anterior, Tarja Turunen (ex-Nightwish) surge cantando em dueto com Sharon del Adel ao melhor estilo Symphonic Metal em “Paradise (What About Us?)”. Faixa na zona de conforto do segmento. A sonoridade é mais densa e dark. A letra é baseada no discurso de Peter van Uhm, general aposentado holandês,  que em 2013 em um discurso afirmou sobre a importância do pensamento coletivo do “nós” contra os interesses egoístas. Já o contraste acontece novamente em “Edge of the World”. Música que começa com sussurros da vocalista acompanhada de uma batida. As harmonias e melodias lembram algo da cantora celta irlandesa Enya. Ela segue com um tom calmo, mas vai ganhando peso e se assemelha a música pop para estádio. Destaque para o solo somada à orquestrações e peso deixando a canção ainda mais épica. 

O início atmosférico e calmo de “Silver Moonlight” lembra um pouco o começo da carreira do grupo, porém o peso logo emerge trazendo na melodia o novo estilo do Within Temptation. O destaque vai para o retorno da utilização dos vocais guturais feitos pelo vocalista e guitarrista Robert Westerholt. Em seguida, vem a simples e acessível “Covered by Roses”. A estrutura simples destaca ainda mais o refrão grudento feito para cantar junto com o público ao vivo em show. We all have our place in time. Need to live every moment./ Todos nós temos o nosso lugar no tempo. Preciso viver cada momento.” Depois, “Dog Days” vem no mesmo estilo da anterior com o “corpo” calmo para deixar o refrão ainda mais em evidência. 

O início de “Tell Me Why” traz a combinação de peso e melodia sinfônica com coros para dar um tom épico. Longa, também tem momentos mais Metal com outros brandos. Além disso, há refrão chiclete a utilização novamente dos vocais guturais. A versão simples de “Hydra” termina com a balada radiofônica “Whole World Is Watching”. Mesmo com a utilização de violinos esta faixa retrata o fato de estes holandeses estão preocupados em fazer um som mais acessível. Os primeiros segundos da faixa lembram “Memories” de “The Silent Force” (2004). Aqui acontece a quarta participação do álbum. Dave Pirner vocalista, guitarrista e fundador da banda de rock americana Soul Asylum (que teve o auge comercial no início dos anos 90 com músicas como “Runaway Train”). A combinação dos vocais de Sharon e Dave geram um belo dueto grudento. O clima esperançoso combinada com a letra motivadora: “What are you waiting for? What are you fighting for? 'Cause time's always slipping away. The whole world is watching. Yeah, the whole world is watching you when you rise./ O que você está esperando? Pelo que você está lutando? Pois tempo está sempre escapando. O mundo inteiro está assistindo. Sim, o mundo inteiro está vendo quando você ascender.” 

A confirmação do fato que o Within Temptation busca voos mais altos arrebatando um público maior (incluindo o americano, principalmente) está na versão deluxe do álbum. Nela há além das 10 faixas originais outro CD composto por 6 covers e mais 4 rascunhos e versões descartadas das originais. O primeiro cover é da banda rock (indie) dos Estados Unidos Imagene Dragons com “Radioactive” (“Night Visions” de 2012). A estrutura dela respeita a dos americanos. Ela é bem pop também, mas fica evidente ao público que mesmo nesta nova direção o Within permanece sendo uma banda de Metal dado peso acrescido aos eletrônicos do Imagene. Lana Del Ray cantora que chamou bastante atenção do público e crítica no começa dessa década pelo “timbre zem” que possui recebe cover em “Summertime Sadness” (“Born To Die” de 2012). A original é todo construída em cima de harmonias e não existe muita “profundidade”. Já aqui Sharon usa vários tons de voz. Mesmo assim, ela segue um pouco atmosférica. 

Passenger, cantor inglês de Folk Rock, ganha o cover de “Let Her Go” (“All The Little Things” de 2012). A original é soft e construída sob o violão. Já a do Temptation tem um tom épico sinfônico e é mais dramática. Enrique Iglesias é espanhol, mas vive em Miami nos Estados Unidos. Este definitivamente se americanizou. Seria ele escolhido como uma forma de exemplo a ser seguido indiretamente? “Dirty Dancer” (“Euphoria” de 2010) de Iglesias é uma simplória e repetitiva música eletrônica em música feita para ser chiclete. Já o cover foi acrescido de peso, é claro. Bruno Mars é também um dos cantores pops que mais chamaram atenção do mundo nos últimos anos. Ganhou prêmios, recebeu elogios o comparando com grandes nomes do estilo e lançou vários sucessos radiofônicos como “Grenade”. O refrão é extremamente grudento, mas o real destaque vai para a interpretação de Sharon. A melodia e os efeitos eletrônicos ficam ainda melhores acompanhados do peso do Metal. 

Apesar do foco destes cinco bônus serem músicas recentes, o último cover é de uma balada oitentista. “The Power Of Love” do grupo Frankie Goes to Hollywood é feita ao piano e há orquestrações. Já a do Within é pesada e guiada por guitarra, bateria e teclado. Os outros quatro bônus são formados por “rascunhos” das versões originais. Parece que e a banda e a produção estavam testando vários trechos diferentes para ver o resultado. Elas são formadas por retalhos. “And We Run”, “Silver Moonlight”, “Covered By Roses” e “Tell Me Why ganham versões chamadas de “Evolution Track”. Esta “modernização” na sonoridade levou o Within Temptation com “Hydra” a posições altas nas paradas de sucessos em vários países: 87º na Irlanda; 73º na Itália; 28º na Espanha; 27º na Dinamarca; 26º na Austrália; 25º no Canadá; 22º no Japão; 16º nos Estados Unidos (e 1º lugar na categoria “Hard Rock”); 15º na Noruega; 13º na França; 12º na Suécia; 11º em Portugal; 9º na Rússia; 6º no Reino Unido (e 1º lugar na categoria Rock/Metal); 5º na Áustria e na Escócia; 4º na Bélgica, na Alemanha e na Polônia; 2º na Finlândia e na Suíça; além de 1º lugar na República Tcheca (pela primeira vez, alcançaram o topo de outro país) e na Holanda (terra natal). 

Mas este sucesso não foi por acaso. Eles trabalharam forte na divulgação do trabalho por toda a Europa em meios de comunicação (principalmente rádios) e até ganharam certo reconhecimento, pela primeira vez, nos Estados Unidos a ponto de serem capa de revista. Deste modo, fica claro que o público e até a crítica admiraram o trabalho. Fãs apontavam que esta é apenas uma continuidade na mudança sonora apresentada desde “The Unforgiving”, mas que nunca estes holandeses ousaram tanto e experimentaram com sonoridades modernas e acessíveis do pop. Aparentemente, a mudança no estilo (principalmente se comparado ao Doom Metal do início da carreira) do grupo não desagradou totalmente o público. A aceitação foi muito boa, diga-se. Obviamente, alguns torceram o nariz para certas partes como a participação do rapper. Provavelmente, estes não são fãs de Linkin Park, Limp Bizkit e Nu Metal em geral. 

Felizmente, independentemente de gosto ou ideologia, o Within Temptation está de parabéns por ter o desejo de seguirem a própria vontade e fazerem o que quiserem musicalmente. E “Hydra” oblitera qualquer dúvida. Mesmo com o evidente desejo de serem aceitos por um público maior (como o cobiçado e importante mercado dos Estados Unidos) e fora dos “limites do Metal” esta pretensão não é vazia. Eles possuem qualidades para tal mérito e os apresentaram aqui. Podem fazer desde algo mais clássico e sinfônico como a parceria com a Tarja como o quase Nu Metal com Xzibit. Eles são ecléticos. A ideia de um álbum bônus com covers de artistas como Lana Del Rey e Imagene Dragons mostra claramente que mesmo sendo canções radiofônicas a essência do grupo está lá, afinal o peso dá um ar Heavy Metal aos hits radiofônicos. Colocaram um pouco de pop no próprio Metal e depois colocaram um pouco de Metal no pop deles. Fantástico. As “evolution tracks” podem parecer estranhas em um primeiro momento... E são. Mas a ideia não era de soarem como músicas de verdade com início, meio e fim, e sim mostrar toda a “evolução” literalmente entre o rascunho e ao que viria a ser a versão oficial. Algumas passagens não agradam, no entanto, mas não atrapalham o todo. Em suma, libertador e verdadeiro para com eles mesmos. Uma mente aberta é melhor, maior e te leva a lugares superiores que aqueles de pensamento pequeno, fechado, medíocre e ignorante nem conseguem imaginar. 


Faixas (clique e ouça):
1- Let Us Burn
2- Dangerous
3- And We Run
4- Paradise (What About Us?)
5- Edge of the World
6- Silver Moonlight
7- Covered by Roses
8- Dog Days
9- Tell Me Why
10- Whole World Is Watching
11- Radioactive (bônus)
12- Summertime Sadness (bônus)
13- Let Her Go (bônus)
14- Dirty Dancer (bônus)
15- Grenade (bônus)
16- The Power Of Love (bônus)
17- And We Run (Evolution Track) (bônus)
18- Silver Moonlight (Evolution Track) (bônus)
19- Covered By Roses (Evolution Track) (bônus)
20- Tell Me Why (Evolution Track) (bônus) 


                                                                             Opinião do autor:
Nota track by track.

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Banda: Within Temptation
Ano: 2014
Álbum de estúdio nº 6
Gravadora: Nuclear Blast / Universal Music
País: Holanda



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